sexta-feira, 22 de maio de 2009

O espelho

''Que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio''
Vinícius de Moraes

Os fragmentos de devaneio que vos compartilho são agora tudo que me resta. A sequência de fatos que me impulsionaram a escrever aqui despertaram em mim os mais primitivos e, por que não, sublimes sentimentos que um homem pode sentir; a você leitor, talvez, nada mais cause que a incômoda sensação de que os acontecimentos poderiam ser reais e de fato os são. Não espero que dê crédito ao meu relato, somente peço que seja minha companhia, talvez a única que me resta.

Despertei de sonhos inquietos, arregalei os olhos, até que quase saísem da orbita, à procura de qualquer réstia de luz que desse alguma pista de onde estivesse. Recordo-me vagamente de como havia parado ali. Sabia apenas que era dia. A janela entreaberta deixava entrar um feixe, e apenas um feixe de luz, que repousava sobre um ponto qualquer do chão.

A escuridão dava conforto aos meus olhos recém despertos, mas não conseguia proporcionar conforto igual à alma. Exceto pelo feixe de luz, que me mostrava o azulejo branco-gelo, a sombra reinava soberana sobre o cômodo que outrora eu repousava; confortante e inquieta sombra, que escondia de mim onde estava. Meus pés tocaram o chão frio. Como um desbravador de matas virgens dava passos cuidadosos em direção ao feixe que vinha da janela. Meti um dos dedos por entre a fresta e forcei a abertura – esforço em vão... A janela estava emperrada.

A porta seria a saída natural para aquele pesadelo momentâneo que vivia. Talvez fosse um dia de má sorte, e nada mais – tentava confortar a racionalidade que insistia em me dizer que algo estava errado. Exausto por tentar abrir a janela, tateei a parede até que encontrasse o trinco do que imaginava ser da porta. Quando toquei a maçaneta, o som da voz de minha mãe invadiu meus tímpanos, bigorna e estribo até atingir minha alma inquieta, como uma injeção confortante, acomodando a alma no mais sublime sentimento de alívio: estava em casa.

Meu primeiro ímpeto foi de gritar, mas talvez minha mãe me julgasse louco – até mesmo as mães julgariam. Talvez contasse a ela o que havia passado em minha cabeça e depois talvez pudessemos rir de tamanha ingenuidade da minha mente juvenil. Meu ímpeto, assim como meu devaneio, foram contidos pela inquietude que se alojava sorrateira em meu peito quando forcei o trinco e a porta não se abriu. Fechei os olhos para que talvez pudesse acordar daquele pesadelo, gritei para que minha mãe pudesse abrir as grades que me prendiam e eu pudesse finalmente me libertar; gritava alto - sem me importar com julgamentos -, mas o tom da conversa ao telefone era indiferente aos meus gritos desesperados.

Contive-me, afinal, louco não era. Havia uma explicação lógica para o que estava acontecendo. Estaria sonhando, nada mais. Deitaria, e quando acordasse, a porta estaria aberta, a janela estaria desemperrada e minha estaria alma liberta. Confesso ter sentido medo quando repousei a consciência no travesseiro, logo suplantado pelo pesado sono que me foi inflingido.

Arregalei os olhos novamente, agora incomodados pela claridade que havia invadido meu quarto. A porta estava aberta e nada mais impedia que saísse da prisão que o pesadelo de outrora me prendera. Passos confiantes e apressados me levaram até o portal. Antes de sair me olhei no espelho apressado, para ter certeza de que não mais sonhava; a voz de minha mãe parecia mais nítida e alta, e que felicidade sentia ao ouvir sua voz, na medida que descia as escadas.

Passei o olhar pelos móveis, pela tevê desligada e pelo telefone fora do gancho, ao alcance das mãos de todos; nas mãos de ninguém. Naquele momento tinha poucas certezas; sabia, porém, que não dormia e nunca estivera tão consciente em toda minha vida. Escutava, sim, a voz de minha mãe falando ao telefone – presumo – com dona Gertrudes, mas não conseguia vê-la. Talvez meus sentidos estivessem a me enganar o tempo todo, como uma criança travessa que prega peças no próprio pai. O som que nitidamente vinha da sala, poderia estar vindo da cozinha. Entraria e veria minha mãe, iríamos rir juntos...

Apertei os olhos o máximo que pude, até que ardessem. Esfreguei-os até que a retina quase se deslocasse. Aplicava ali o castigo aos sentidos, como um pai castiga o filho travesso por lhe pregar tal peça que me fora pregada. Não podia acreditar, não queria acreditar que louco estava. As torradas ainda estavam quentes na mesa, o fogo estava aceso, a porta da geladeira aberta, mas nada além de minha presença habitava a hostil cozinha de minha própria casa.

Não pense, leitor, que me deixei ludibriar pela sensação de loucura. Meus irmãos travessos estavam se divertindo às minhas custas, nada mais. Tive essa certeza quando um novo som invadiu meus tímpanos, estribo e bigorna, até acertarem em cheio minha alma desconfortada, depositando sorrateiramente em meu peito a esperança renovada.

Era Chopin, ou talvez Mozart, que ditavam o ritmo que deslizava pelos degraus da escada até o quarto de meus irmãos. Aquelas notas atenuaram todo o temor que sentia da completa solidão e logo em seguida exacerbaram em mim o mais profundo medo que um homem pode sentir – nem mesmo a morte seria pior. A música, ou esperança, que ouvia, não vinha do quarto dos meus irmãos como meus sentidos me diziam, mas do meu quarto que outrora deixara vazio.

Não se espante, leitor, se neste momento escutares um coração palpitar ao seu lado. Pedi-lhe companhia e agora, certamente, escutará meu coração inflingindo estrondosos golpes à caixa toráxica em um som tão assustador quanto o afiar da espada do carrasco. Meti primeiro os pés pelo portal de meu quarto, queria adiar ao máximo o encontro com a verdade. Fechei os olhos antes que eles pudessem ver qualquer coisa que colocasse a prova minha sanidade mental.

Não há tarefa mais difícil que abrir os olhos quando não queremos ver. A música – de Mozart, ou Chopin – invadia meus ouvidos e aumentava ainda mais a tensão que me corroía por dentro. A força do medo que tinha disputava uma queda de braço com as pálpebras que relutavam em abrir. O som da última nota da música havia feito vibrar meus tímpanos, desconcentrei-me da batalha que lutava contra a curiosidade e esta me deu o golpe fatal. Abri os olhos. O silêncio entre a última nota e o começo de uma nova música foram suficientes para despertar em meu íntimo um sentimento de estagnação: a certeza.

Encontrava-me diante do espelho – não que seja importante onde estava, mas o que via. A primeira vez que olhara aquele reflexo, havia notado minha cama, minha janela, a mesa que agora escrevo, nada mais – lembre-se leitor de minha pressa em encontrar o conforto de meu medo. Lancei um olhar mais atento, franzindo as sobrancelhas, à imagem de meu quarto: estava lá minha mãe revirando os lençois, meus irmãos com lágrimas no rosto e uma incômoda lacuna, onde deveria estar. Havia me tornado a imagem de mim mesmo.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O lado de lá do muro, de mim mesmo.

Para os acontecimentos que vou narrar a seguir, nada mais peço que atenção. Não me julgue bêbado ou repita, com o fervor de uma prece, as palavras que vos compartilho, são apenas o relato daquilo que quereria eu ser um sonho, mas, por infortúnio ou como queira chamar, foi tão concreto quanto os tijolos daquele muro.

A vodka era barata, mas era o preço que pagava para consolar a eterna decepção que sentia de mim mesmo. O tempo e os acontecimentos haviam me calejado; me tornei uma pessoa extremamente amargurada, desgostosa e, por que não, cruel. A única maneira de me afastar de mim mesmo, era afogando aquilo que alguns chamam de alma, o que não sei se posso chamar de minha, apesar de coabitar o mesmo corpo que o meu. Já havia tomado mais da metade da garrafa e admito ter passado da conta - quem nunca passou. Me dava por satisfeito ao sentir longe a alma, o peso que era obrigado a carregar.

Foi depois de um gole - ou teria sido depois de uma farta mordida no queijo rançoso - que vi, por mais que meus sentidos negassem com veemencia aquilo que era evidente, a surgência de um muro, tijolo por tijolo, rasgando ao meio meu quarto e sala e me separando da alma.

Confesso, enrubrecido, mas confesso, que o corpo inóco me dava uma sensação plena de liberdade, uma ausência de qualquer grilhão que aquela altura tentava me forjar. Não pense que enlouqueci; lhe avisei, leitor, não me julgue. Apenas narro os fatos e foi exatamente assim que aconteceu.

Enquanto recobrava a sobriedade, também sentia uma sensação nunca antes sentida. Sempre esperava armagurado o retorno de minha alma que era recobrada com a sobriedade e agora sentia um prazer raro - raríssimo - de poder não sentir a agonia do convívio comigo mesmo. Me olhei no espelho e não mais sentia a ameaça iminente.

O raro sentimento foi efêmero, como um gozo. Logo a inquietação tomou o lugar da segurança que sentia e agora a solidão pairava entre as paredes e o muro do meu quarto e sala. O convívio com o medo de mim mesmo já não me fazia companhia - e que outra companhia tem alguém tão amargurado. Levantei-me da posição fetal que estava a observar o muro, caminhei até a janela e vi lá fora os muros surgentes; separavam ruas, casas, vidas e almas...

Meu devaneio foi interrompido nesse momento. Um som estridente, ou uma voz vinha do outro lado do muro, que agora observava com os olhos apertados numa tentativa de dar credito aos meus sentidos que se recusavam a ver as evidencias. A passos surdos, caminhei até o muro, encostei a orelha nos tijolos frios a fim de ouvir aquilo, que alguns segundos depois, descobri ser o clamor da essência, que agora sabia ser minha, em reestabelecer o calvário.

Precisava da compania do medo de mim mesmo. Meus inócuos sentimentos sem alma tentavam me fazer sentir seguro, mas ainda sim era só - o que é um homem sozinho senão já morto. Meu instindo, ou talvez o desejo inconsciente de traspor o muro me fizeram olhar para o lado. Lá estava uma marreta, deixada ali, pelos homens que há pouco reformavam minha casa, ou pelo destino. A marreta também clamava para por o muro à baixo.

Era meu sublime dever reestabelecer o calvário, as vozes me diziam. Um dever amaríssimo, é verdade, mas que dever não o é. As vozes que vinham da minha cabeça, ou do outro lado do muro, me instigavam e a esse ponto ficavam cada vez mais altas, a ponto de escutá-las elas e nada mais. Agarrei a marreto com a veemencia de um padre que se agarra no crucifixo. Instrumento de destruição e renascimento - que ironia - agora inflingia aos tijolos severos golpes que faziam sangrar por entre o reboco.

Um a um os tijolos iam a baixo e sempre que um caía no chão me deixava mais proximo de mim mesmo; as vozes ficavam mais fortes. ''Não pule'', escutava surdamente em meio aos murmúrios indecifráveis de vozes ancestrais; devia ser a consciencia, nada mais. O útimo tijolo foi a baixo, agora havia espaço suficiente para passar para o lado de lá, da alma, de mim mesmo. Transpus o muro e finalmente me encontrei... a seis andares do chão; cinco, quatro, três...

Sobre cães e lebres

Cães e lebres; o homem e a liberdade. A mesma relação paradoxal que envolve os cães tentando alcançar, em vão, as lebres de plástico, é a mesma que envolve a eterna busca humana pela liberdade. Em cada vão momento, a sensação de quase alcançar a lebre, ou quase atingir o estado de liberdade, impulsiona cada vez mais a corrida, a luta pelo objetivo - ora tão próximo, ora tão inalcançável. Poder-se-ia dizer que lebres e liberdade são utópicos, não fossem as concretas batalhas em prol desses ideais; mas ser livre significa poder escolher entre correr ou não atrás das lebres?

Liberdade é um conceito relativizado - varia de indivíduo para indivíduo. Talvez ela se explique pelo direito de ir, vir e permanecer ou até pela possibilidade de expressar uma ideia, dependendo de quem a concebe(a liberdade) . Essa relativização ocorre porque constantemente confundimos ser livres com a sensação de liberdade. Enquanto expressar uma opinião ou até mesmo nadar nu em mar aberto nos dá uma sensação de sermos livres, a liberdade é um conceito arquetipado; por mais que nos sentimos desprendidos dos grilhões que nos forjam, há sempre um grilhão que impede a liberdade plena.

Entendo que ser livre é como ser feliz. Não exise felicidade plena, mas isso não é impedimento para se viver momentos felizes; o mesmo vale para a liberdade. A eterna possibilidade, aliada ao desejo, de alcançar a lebre, mantém o cão na corrida; a eterna busca pela libertação - por que não de si mesmo - mantém o homem vivo.

Não vejo, porém, a liberdade como utopia, apesar de inalcançável. É ingenuidade pensar que muros e barras de ferro são instrumentos de privação de liberdade. O homem em sua grandiosidade, enquanto pensamento, transcende as barreiras físicas. Sonhos, utopias e idéias são tão concretas quanto o concreto que impede a carne de ir, vir e permanecer.

Conclui-se que a liberdade talvez seja uma utopia concreta, por mais paradoxal que isso possa parecer. Uma topia que mantemos sempre à vista, como um arquétipo ( modelo a ser seguido), um guia. Não fossem as concretas lebres, não haveria motivo para correr; e a escolha entre correr ou não é uma metáfora entre viver e não viver, ser ou não ser.

Sobre cães, homens, lebres e liberade: não há um único cão que tenha abocanhado a lebre de madeira- ou de plástico, que seja - da mesma maneira que não há um único cão que tenha parado de correr. Para que ser livre, enquanto podemos escolher correr sempre atrás da liberdade...